terça-feira, 25 de março de 2008

As aventuras da Blitz chegam às estantes

Abre-alas do rock nacional dos anos 80, a Blitz nunca teve sua história esmiuçada, ao contrário de grupos posteriores como Paralamas do Sucesso e Titãs. Agora, o grupo de Evandro Mesquita - que continua na ativa, lançou recentemente o DVD Blitz ao vivo e a cores (Performance Be) e tem boa agenda de shows, muitos deles em eventos fechados - tem sua trajetória contada em As aventuras da Blitz, que a Ediouro está programando para agosto.

O autor é o jornalista Rodrigo Rodrigues, conhecido por apresentar o programa jovem Vitrine, da TV Cultura. Rodrigues, 32 anos, é fã da banda desde a infância e a viu ao vivo durante a minitemporada na Praça da Apoteose, em setembro de 1984 - que gerou um especial para a Rede Globo, Blitz contra o gênio do mal. Ele enfatiza que resgatou o nome do primeiro álbum da Blitz para seu livro, por ser o melhor para definir a história do grupo.

- A Blitz fez uma espécie de test drive da beatlemania brasileira pós-jovem guarda. O boom de cultura pop veio depois deles. Expressões como "ok, você venceu" e "calma, Beth" foram popularizadas por eles e são usadas até hoje - diz Rodrigo, lembrando que a Blitz teve músicas em novelas, álbum de figurinhas, inspirou grife de jeans e, por pouco, não protagonizou um filme, que seria dirigido por Murilo Salles em 1984. - Não deu certo porque o clima na banda estava ruim e o Murilo não tinha dinheiro. Parte desse material foi aproveitado pelo Fantástico num clipe alternativo de Você não soube me amar, feito em película.

Quando o rock nacional dos anos 80 se iniciava - com bandas como Kid Abelha e Barão Vermelho - a maior fatia do sucesso cabia à Blitz, uma banda que vendeu cerca de um milhão de cópias do primeiro single, com a divertida Você não soube me amar (EMI, 1982) e quase bisou tal marca na seqüência, com o primeiro LP, As aventuras... Rodrigo gravou um depoimento de Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio, afirmando que, para a primeira versão do festival, em 1985, pensou em apenas um grupo nacional com peso para encarar a cidade do rock. Era a Blitz, que, além de Evandro, tinha as vocalistas Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, o guitarrista Ricardo Barreto (parceiro de Evandro em quase todo o repertório), o tecladista Billy Forghieri, o baixista Antonio Pedro e o baterista Juba (que substituiu Lobão, músico convidado no primeiro LP).

- Não tinha para ninguém. Os Paralamas, que depois venderiam muitos discos, foram escalados porque ficavam ligando para a produção do festival.
Historicamente, muitos se referem à Blitz como o primeiro grupo verdadeiramente de rock nacional pós-anos 70, isolando bandas como A Cor do Som e 14 Bis. Rodrigo viu que não era bem isso.

- Mariozinho Rocha, que lançou a Blitz na EMI, diz que a banda não era só rock. E não era, porque tinha reggae, pop, tudo. A diferença foi o fato de a Blitz ter sido o primeiro grupo dessa época a mirar o jovem como público - diz, ressaltando outras conexões. - O 14 Bis fez propaganda da Blitz para a EMI. E Cleberson Horsth, tecladista do Roupa Nova, regeu o coral de Você não soube me amar, sem ser creditado.

Evandro Mesquita confirma que a banda encontrou terreno favorável no proto-pop nacional.

- Fiz uma música, Alto astral, com A Cor do Som no disco Mudança de estação (1981). Eles eram nossos amigos e até emprestavam o som para nossos shows - conta o músico, que adorou a idéia da biografia. - É como fechar um ciclo da nossa história. E mostra a gente para uma nova geração que está começando a ir nas nossas apresentações.

Pode o sucesso em demasia ser prejudical a uma banda? Rodrigo afirma que, no caso da Blitz, o êxito trouxe conseqüências drásticas. A crise agravou-se na época do terceiro disco, Blitz 3 (1984), arrastou-se por 1985 (apesar de uma boa apresentação no Rock in Rio, em janeiro, e até de um show numa praça pública em Moscou, na antiga União Soviética, em julho) e estourou no ano seguinte, quando o casal Márcia Bulcão e Ricardo Barreto comunicou sua saída - o fim da banda foi noticiado em primeira mão pelo Caderno B em 7 de março de 1986.

- A banda teve uma fase de drogas e álcool, mas isso não atrapalhou. O problema foram as conseqüências do sucesso, como o ritmo de trabalho intenso, as várias cobranças e, em especial, as crises de egos, de gente reclamando: "pô, tem mais música sua do que minha!". Além disso, a liderança era do Evandro e do Ricardo, mas o Evandro era o vocalista, era um cara boa pinta, já tinha feito o filme Menino do Rio (de Antono Calmon). É claro que ele aparecia mais - diz Rodrigo, que negocia conversas com Márcia, Ricardo e Antonio, hoje rompidos com Evandro, Juba e Billy, que permaneceram na Blitz. - A biografia não é chapa-branca, não é a visão pessoal do Evandro. Até o Lobão, que saiu brigado da banda, me deu um depoimento de seis horas e disse que quer fazer um acústico com todos os que passaram pela Blitz.

Para seguir o esquema pop da Blitz, a história da banda será contada com muitos recursos visuais. Se tudo der certo, terá o trabalho gráfico assinado pelo mesmo Luiz Stein que, ao lado de Gringo Cardia, se responsabilizava pelo visual dos LPs da Blitz. Rodrigo planeja até um box com as melhores frases de Evandro.

- Quando perguntavam a ele sobre o fim da Blitz, ele respondia coisas como "pô, vocês querem beijo na boca ou bodas de ouro?" - brinca Rodrigues, acreditando que a banda tem muito a ensinar aos roqueiros da atualidade. - A Blitz não tinha plano de carreira, tudo era original e espontâneo. O rock nacional está muito burocrático hoje.

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