quarta-feira, 9 de abril de 2008

Axé triunfa com artista "fiel" e "pegação"

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
Enviado da Folha de S.Paulo a Salvador

Críticos anticarnaval, moralistas de plantão, guardiões da "qualidade" da música brasileira, horrorizai-vos: a axé music veio, mandou tirar os pés do chão e jogar as mãozinhas para o alto e venceu.

E os números (do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad) mostram que foi de goleada, por qualquer ângulo que se analise.

Compositor mais tocado do Brasil em 2005 e 2006 e vice em 2007? Carlinhos Brown (que ficou atrás de Chico Buarque no ano passado). Canções mais tocadas em shows de 2005 a 2007? Das dez primeiras a cada ano, apenas uma não era axé.

Artista mais lucrativa do país há alguns anos? Ivete Sangalo (cachê de R$ 300 mil a R$ 400 mil por show, média de 12 shows por mês, afora contratos publicitários), que colocou dois DVDs ao vivo não apenas no topo dos mais vendidos do Brasil como no dos mais vendidos do mundo pela gravadora Universal (em 2005 e 2007).

O axé, gênero nomeado por um jornalista baiano e que acabou abarcando "tudo o que vem da Bahia", como reclama Daniela Mercury (justamente a madrinha do gênero, graças a seu CD recordista, "O Canto da Cidade", que há 16 anos transformou a música baiana em fenômeno nacional), tornou-se o motor de uma azeitada máquina de promoção de shows.

Mais do que isso, passou a ser o mais destacado representante da música brasileira no exterior --Carlinhos Brown é rei na Espanha; Daniela e Ivete lideram em Portugal; o Chiclete com Banana faz turnê nos EUA; todos tocam em países como França, Itália e Alemanha.

Musicalmente, o que se denomina "axé music" é a mistura do som "dos blocos afros com instrumentos eletrônicos", como diz Daniela à Folha. Para efeitos comerciais e de divulgação, o rótulo acabou abrangendo variações como o samba-reggae e o samba da Bahia.

Marcos da dominação

"O axé retoma a música brasileira para os brasileiros, é um gênero vibrante e rítmico, uma grande miscelânea musical", diz Daniela. "É uma música de entretenimento, despretensiosa e muito participativa", afirma Ivete, por e-mail.

Há pelo menos três grandes marcos da dominação da axé music: o sucesso inesperado e estrondoso de "O Canto da Cidade", em 1992; a geração das dançarinas de muito rebolado e pouca roupa, lançada pelo É o Tchan (então Gera Samba) em 1995; e o fenômeno Ivete Sangalo, que estourou com a banda Eva em 1997 e depois em carreira solo, a partir de 1999.

Como antecessores, ainda na década de 1980, estão Luiz Caldas (com hits como "Fricote", "Haja Amor" e "Tieta"), o Olodum (com os Carnavais de "Faraó" e "Madagascar") e o Chiclete com Banana.

Originalmente uma música do Carnaval baiano, o sucesso do axé entre os turistas que visitavam a Bahia acabou fazendo o gênero transbordar para outras regiões e outros meses --por meio das micaretas, os Carnavais fora de época.

"Como negócio, o axé é mais forte fora do Carnaval", diz Roberto Bezerra, um dos donos da Destaque Promoções, que organiza o maior evento de música baiana depois da festa de Salvador, o Carnatal (RN).

"O que Ivete ganha no Carnaval é 10% do que ela fatura nos outros eventos ao longo do ano. O Carnaval serve de vitrine."

Para Bezerra, o fortalecimento das relações entre artistas e contratantes em cada Estado é a base de sustentação do crescimento do gênero.

Fidelidade

"Eles contrariam a lei de mercado e não leiloam seus passes, têm fidelidade aos contratantes. Com isso, nós os promovemos, fazemos o trabalho de exposição da marca."

Isso explica, segundo o empresário, a predominância do axé sobre o pop e o rock, por exemplo. "Depois que as gravadoras quebraram, só quem fazia promoção eram os contratantes. E com quem eles trabalhavam? Com os artistas da música baiana."

Outro motivo do êxito é justamente a fome de sucessos, independentemente do gênero. "O que estiver estourado o axé toca. Eles tocam as músicas uns dos outros e o que estiver sendo bem executado no país", de "Anna Julia" (Los Hermanos) ao "Créu" (do DJ Sérgio Costa).

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