sexta-feira, 13 de junho de 2008

DVD Ney Matogrosso "Inclassificáveis"

Em seu novo DVD, Ney Matogrosso documenta o show "Inclassificáveis" em registro gravado no Canecão, no Rio de Janeiro, em janeiro de 2008.

No decorrer do roteiro de aproximadamente hora e meia de espetáculo, o artista usa a linguagem pop-rock para enfatizar o perfil mutante de sua peculiar obra de intérprete.

Veterano transgressor no recatado panorama da música popular brasileira, Matogrosso ignora fronteiras entre diferentes estilos musicais por meio de um repertório variado, que destaca a versatilidade de seu canto.

"Inclassificáveis" --primeiramente show, depois álbum e agora DVD-- tem espinha dorsal baseada nos temas "O Tempo Não Pára", "Mal Necessário", "Ode Aos Ratos", "Divino Maravilhoso" e a faixa-título. É uma espécie de divisor de águas em sua carreira, devido às variadas conexões com os primórdios de sua trajetória solo, sem sucumbir ao ranço passadista --das referências de pop-rock latinas tão entranhadas em suas performances até às interpretações comoventes de baladas e canções mais delicadas com as quais se notabilizou.

Pois, apesar do enfatizado verniz roqueiro dos arranjos executados por seu sexteto, formado por Emilio Carrera (piano, teclado e direção musical), Júnior Meirelles (guitarra, violão e vocal), Carlinhos Noronha (baixo e violão), Sérgio Machado (bateria), Felipe Roseno (percussão) e DJ Tubarão (percussão e toca-discos), o cantor se sai melhor justamente nos temas de andamento mais lento do roteiro de 20 canções, como atestam suas interpretações para "Ouça-me" (Itamar Assumpção e Alice Ruiz), "Mente, Mente" (Robson Borba) e "Veja Bem, Meu Bem" (Marcelo Camelo), entre outras.

No entanto, o melhor de seu trabalho não se restringe à emoção com a qual se apropria de temas alheios, mas sim na ênfase das sutilezas das canções por meio de seu registro de contratenor -- incomum ao sexo masculino.

Como seus shows são espetáculos com forte apelo audiovisual, o tradicional animal de palco que freqüentemente incorpora em cena (misto de homem e bicho) desta vez assume a persona de um deus inca, por meio de alegorias propostas por figurino assinado pelo estilista Ocimar Versolato e cenografia a cargo do carnavalesco Milton Cunha.

Tal mise-en-scène confere ao DVD importância maior do que a de mero registro ao vivo de um disco, pois retrata dignamente a exuberância de um de nossos artistas mais completos, por meio das infinitas metamorfoses de sua personalidade camaleônica --sempre impetuosa, mas ainda mais veemente em seus shows.
Por Marcus Marçal

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