segunda-feira, 7 de julho de 2008

18 anos da morte de Cazuza: confira discografia comentada

Confira abaixo a discografia comentada de Cazuza, um dos artistas mais importantes da música brasileira, cuja morte completa 18 anos nesta segunda-feira.

Cazuza (1985, Som Livre)- Relançado em CD com o título da música que deu fama ao disco (Exagerado) e que passou a servir como assinatura do cantor, Cazuza ainda tem um forte lado roqueiro, apesar de já flagrar o cantor caminhando em direção a MPB - pouco antes do lançamento, ele dissera que se direcionaria para um som mais clássico, mas que iria continuar compondo canções mais agressivas para os "meninos" do Barão Vermelho. A face rocker localiza-se em músicas como a faixa título, Rock da Descerebração (gravada três anos depois pelo Barão em versão mais pesada), o hard rock Desastre mental (parceria com Renato Ladeira, gravada pelo Herva Doce, banda que Renato liderava na época) e na acidez de Só As Mães São Felizes. Mas, além da faixa-título, a música que ganhou as rádios foi mesmo a balada mpbística Codinome Beija-Flor. Detalhe: boa parte desse repertório teria ido parar no quarto disco do Barão com Cazuza, que não chegou a ser gravado - Exagerado, já tinha ganho um arranjo bem mais pesado, na linha do Who.

Só Se For a 2 (1987, Universal) - Após sair da Som Livre (que dissolveu seu elenco e preferiu se concentrar apenas em projetos) e se transferir para a Polygram, hoje Universal, Cazuza passou a se focar mais ainda numa espécie de MPB jovem, de rádio, lembrando a fase pop que Ney Matogrosso e Gilberto Gil insinuaram após o fim dos anos 70. Só se For a 2 é um grande disco, de transição, em que Cazuza já não era mais um ex-Barão tentando se firmar, mas ainda não tinha o carisma que viria nos discos seguintes. O resultado foi um disco pródigo em baladas, como Solidão que Nada e O Nosso Amor a Gente Inventa (Estória Romântica).

Ideologia (1988, Universal) - A música "adulta" abria as portas de vez para Cazuza - com direito a shows lotados, fãs acima de 40 anos e uma das músicas do novo disco, o samba-rock Brasil, cantada por Gal Costa na abertura da novela global Vale Tudo. A contradição era que, nesse momento, o cantor vinha com um disco em que o romantismo de músicas como a bossa Faz Parte do Meu Show e a balada Minha Flor, Meu Bebê (recentemente relembrada por Caetano Veloso num dos shows da temporada Obra em progresso) convivia com a crueza de Orelha de Eurídice (cuja letra foi oferecida a Renato Russo para que botasse letra - o líder da Legião Urbana recusou porque não achou o tema pop), Guerra Civil e Obrigado (Por Ter Se Mandado). Havia músicas que combinavam os dois lados, como o country Vida Fácil, o Blues da Piedade e a radiografia de época concentrada na faixa-título. Prestes a revelar que portava o HIV (o que quase fez no programa Canal Livre, da apresentadora Marília Gabriela, na Band), Cazuza pavimentava o caminho que, em pouco tempo, o transformaria em mártir.


O Tempo Não Pára (1988, Universal) - Editado pouco depois de Ideologia, O Tempo Não Pára lançava outra faixa-título forte (imortalizada pelo "obrigado!" dito pelo cantor aos últimos acordes da música) e flagrava Cazuza ao vivo num momento que os shows do cantor, já debilitado pela Aids e bastante magro, ganhavam contornos históricos. Além de recordar sucessos como Exagerado e Faz Parte do Meu Show, e trazer músicas antigas não tão bem sucedidas, mas que estavam dentro do conceito do show, como Boas Novas (do disco anterior, na qual Cazuza narrava sua experiência de quase-morte durante uma internação), Cazuza ainda usurpava Vida Louca Vida, de Lobão e Bernardo Vilhena, numa versão tão pessoal que o próprio Lobão afirmou que,a partir desse momento, a música passava a ser do ex-Barão.

Burguesia (1989, Universal) - Havia gente que nem acreditava que esse disco fosse ser completado ou lançado. O duplo Burguesia foi gravado em condições heróicas (com Cazuza deitado no estúdio e acompanhado por enfermeiros) e havia sido concebido por ele numa cama de hospital, com letras sendo enviadas com rapidez para os mais diversos parceiros. Não houve jeito da qualidade não ficar comprometida, tanto em letra (como na pueril faixa-título e em versos sem métrica, sem rima, e em alguns casos, sem pé nem cabeça, como Garota de Bauru e Bruma) quanto em música (em melodias repetitivas como as de Nabucodonosor e Perto do Fogo, além das versões de Quase Um Segundo, dos Paralamas, e de Cartão Postal, de Rita Lee) e, em especial, em qualidade de gravação (comandada pelo próprio cantor, que se responsabilizou pela produção). Já as belas Azul e Amarelo, Eu Agradeço e Quando Eu Estiver Cantando, transcendem o clima down do disco e imprimem um pouco de vigor. Cobaias de Deus, parceria com Angela Ro Ro, é o testamento ("Se você quiser saber como eu me sinto, vá a um labotório ou num labirinto, seja atropelado por esse trem da morte").

Fonte: JB Online/Ricardo Schott


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