quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Caixa refaz trajetória de Ney Matogrosso

Em 1975, com a ditadura ainda mais para escancarada do que encurralada, Ney Matogrosso aparecia seminu no encarte de "Água do Céu - Pássaro", seu primeiro disco solo (pós-Secos & Molhados), e ainda simulava um orgasmo na faixa "Açúcar Candy". Era preciso ser muito macho.

"Naquele momento era muito chocante. E intencionalmente. Era um embate com a censura, o governo. Eu estava defendendo a minha liberdade de expressão e me excedia mesmo", recorda Ney, agora com 67. "Fui rejeitado por direita e esquerda. Eu não tinha nenhuma intenção política, só existencial. Mas já ouço depoimentos de pessoas que dizem que eu lutei com armas mais eficazes do que a guerrilha."

A avaliação do papel histórico de Ney é muito facilitada com "Camaleão", caixa que reúne os 16 álbuns que ele lançou entre 1975 e 1991 e mais um de raridades -198 faixas ao todo. O minucioso trabalho do pesquisador Rodrigo Faour, viável após licenças das várias gravadoras, ressuscita discos que não tinham saído em CD ou tinham saído porcamente.

"Todos os seus grandes sucessos de carreira solo estão nessa caixa, e tudo o que Ney fez a partir de então foram desdobramentos dessa fase", afirma Faour.

A caixa faz um percurso: da postura "chocante" do primeiro trabalho à suavidade de "À Flor da Pele", em que cantava sem figurino ou maquiagem e apenas acompanhado do violão de Raphael Rabello.

"Precisei chegar ao "Pescador de Pérolas" [de 1987, recital que fazia com quatro músicos] para poder me dedicar a outro ramo. Eu sabia que cantava, mas também ficava na dúvida, porque falavam tanta loucura: é porque "mostrava a bunda", "ficava nu"... No "Pescador", foi quando abri mão de qualquer forma espetaculosa e fui me dedicar ao ato de cantar", conta à Folha.

O intérprete que depois gravaria tributos a Villa-Lobos, Ângela Maria e Cartola nasceu ali, mas antes se firmara o personagem de danças e (poucas) roupas nada convencionais, que já provocava nos títulos dos discos: "Bandido", "Pecado", "Seu Tipo". Sem falar nas fotos, como a dele totalmente nu no LP "Feitiço" (1978).

"Não tenho mais nenhum interesse por esse tipo de coisa", avisa ele, que diz estar light no atual show "Inclassificáveis". "Tinha quando não podia. Pode agora? Tá bem, tá tudo liberado, já não me interessa. [Na época] Eu fiz uma sessão de fotos com o Trípoli... Ele foi me perguntado: "Você tira a camiseta?" "Tiro". "Você abre a calça?" "Abro". "Tira a calça?" "Tiro". "Tira a cueca?" "Tiro". Recentemente, ele quis publicar a foto, eu pedi que não botasse o pau de fora. Não me interessava mais. Gosto de ficar nu, tomar banho de rio nu, tomar banho de mar nu, mas não tenho essa necessidade de usar para espantar alguma coisa."

Ney nunca foi chamado para depor nos Dops de então. Mas diz ter recebido vários recados de que estava exagerando. Chegou a se incomodar por entender que o regime militar o via como símbolo gay, o que seria muito redutor. "Eu gostaria de falar de muito mais coisas. Mas acho que abri uma porta larga aí, sem virar estandarte de nada. Eu, na verdade, defendo os direitos de expressão para todos, incluindo os homossexuais", explica.

Telma

Curiosamente, um de seus sucessos relacionados ao universo gay ficou fora da caixa. Já há anos ele assegurou que "Calúnias (Telma, Eu Não Sou Gay)" não fizesse parte da sua obra. Diz que cantou a versão de "Tell me Once Again", em 1983, só para o disco do grupo João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, que gostava de paródias. Mas foi obrigado a incluí-la em seu próprio disco por um diretor da gravadora CBS, que teria ameaçado retirar os LPs de João Penca das lojas.

"Sofri uma chantagem. Eu fiquei puto, mas me submeti, porque ainda não bancava essas coisas. Nunca consegui engolir essa história", diz.

Abrangendo da canção mais sofisticada ao pop mais efêmero, a caixa reflete uma trajetória que deu a Ney o direito de, hoje, cantar o quer.

Agora mesmo, está ensaiando para um projeto em que, pela primeira vez, gravará Roberto Carlos: "A Distância". Só seu lado letrista é que exercitou muito pouco. Por autocrítica, não por medo, garante. "Eu não tenho medo de nada."

Por Luiz Fernando Vianna
Fonte: Folha Online

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