quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Tina Turner: ainda orgulhosa, ainda ágil, ainda feroz

Em diversas ocasiões durante o show que fez no Madison Square Garden na segunda-feira, Tina Turner cantou olhando a platéia de cima. Primeiro ela subiu em um palanque, depois de uma plataforma, por fim em um guindaste. O efeito visual é interessante, mas qualquer pessoa pode parecer imperiosa quanto está 10 metros acima dos espectadores. O verdadeiro gênio da cantora se fez sentir quando ela estava com os pés no palco.

Em terreno sólido e saltos altíssimos, ela se movia como um borrão feroz. Se a coreografia dos cantores da Motown lembra o toque suave de um violoncelo, a de Turner se assemelha mais ao som de um motor de popa. O idioma físico pulsante que ela utiliza, fortemente inspirado pelo de Mick Jagger quando ele era jovem, é o que fica na cabeça do espectador ao final do espetáculo.

Ninguém mais poderia fazer show semelhante: quem mais tem mais de 40 anos de canções de sucesso, quem mais ousaria apresentar um espetáculo de palco tão extravagante, com explosões e dançarinos usando roupas de lamê? Quando Turner dança ao seu estilo fazendeiro -caminhando de modo provocante, com os joelhos ligeiramente dobrados, e subitamente erguendo primeiro uma e depois a outra perna com uma mistura de careta e sorriso-, isso também representa uma forma de música, e um presente da cantora a cada espectador.

E a gritaria tampouco decepciona. Turner tem 69 anos, e sua voz se adensa de maneira emotiva sempre que ela canta sobre os dominadores ou os dominados. Trata-se de uma voz de esperança, cujas conotações são sempre ambições e anseios, e nunca miséria e sofrimento. Mas ao longo da noite ela passa por momentos monocórdicos, por momentos de aparente enfado. Para superá-los, são precisos gritos, e ela recorreu a eles com bastante freqüência, especialmente se considerarmos que estava fazendo a 30ª apresentação em uma turnê mundial que se estenderá até o final de abril.

Aquilo que Jagger tomou de empréstimo a ela, Turner retomou. O espetáculo se assemelha muito a um show dos Rolling Stones - o guindaste que a transportou em um vôo por sobre as primeiras 20 fileiras de assentos da platéia; a insistência em interpretar canções com os arranjos originais (especialmente sua versão de Proud Mary, com o monólogo de introdução que compara "fácil" a "difícil"); a ênfase um tanto museológica no catálogo de discos, filmes e programas de TV passados, em lugar de na presença física da cantora como entidade a ser cultuada; o jogo sexual meio brincalhão de uma pessoa em idade já avançada, que ela interpreta de maneira completamente convincente -sem esquecer o fato de que ela cantou algumas covers dos Rolling Stones diretamente, como Jumpin' Jack Flash e It's Only Rock'n'Roll.

Houve muitos momentos em que o show parecia uma espécie de edição comemorativa da MTV de 1989. Uma seção ao modo "Acústico" abriu a segunda parte da apresentação, com Turner sentada em um banquinho cantando um novo arranjo vocal de Help, dos Beatles. (Isso permitia que ela repousasse um pouco e oferecia aos espectadores uma visão melhor das solas vermelhas laqueadas dos sapatos Christian Louboutin negros que ela calçava.)

Turner cantou sua versão de Addicted to Love, de Robert Palmer, acompanhada por imagens em vídeo de modelos posando com guitarras, semelhantes às do vídeo original de Palmer para a canção. E houve interlúdios de exagero brincalhão mais apropriados a um programa de premiação televisivo: ninjas em falsas brigas com os seguranças, guerreiros blindados pós-apocalípticos (para We Don't Need Another Hero, canção da trilha sonora de "Mad Max"); uma absurda seqüência ao estilo James Bond para acompanhar "Golden Eye", canção de Turner para o filme homônimo do agente secreto, se a sua memória não está ajudando.

Apesar de seu estilo de dança agressivo, Turner parece ser uma pessoa extremamente cortês. Ela mencionou os nomes de todos os técnicos de som e iluminação ao agradecer, e cantou "Parabéns a Você" para uma de suas backing vocals. Também disse à platéia, de uma maneira tão delicada e sutil que nem mesmo consigo reproduzir, que todos deveriam estar orgulhosos por serem uma audiência tão boa. Por sob o estilo agressivo e os exageros espetaculares do show, parece existir uma pessoa decente. E essa é mais uma das sensações que ela propicia aos espectadores quando eles voltam para casa.

Por Ben Ratliff
Tradução: Paulo Migliacci

Fonte: The New York Times/Terra

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