terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Na era Obama, Bruce Springsteen une esperança e sofrimento

"O passado, na verdade, nunca é passado. Ele está sempre na nossa vida diária. Pode nos pegar, nos deixar mal e acabar nos devorando", afirmou recentemente Bruce Springsteen em entrevista ao jornal britânico "The Guardian", ao falar de "Outlaw Pete", faixa de abertura de seu novo disco, "Working On a Dream".

"E nós vivemos um pesadelo de oito anos para cá, com uma administração cega, sem a menor consideração com o passado. Vidas foram arruinadas, coisas horríveis aconteceram porque não havia senso histórico. Não havia nenhuma noção de que o passado ainda é vivo e forte", completa.

"Outlaw Pete" é justamente uma minissuíte (de oito minutos) cuja letra gira em torno de um personagem que, por mais que lute, não consegue se ver livre de sua história. E dá a cara de "Working On a Dream", que é inspirado, evidentemente, pela transição de George W. Bush para Barack Obama --que o roqueiro apoiou publicamente.

Mas não há otimismo barato em nenhuma das canções do CD. Entre melodias tristes e belas (como a de "This Life", cuja introdução evoca passagens de "Pet Sounds", clássico álbum dos Beach Boys) e letras de teor agridoce, em especial a da balada irônica "Queen Of the Supermarket", Springsteen continua mirando o lado mais fraco da corda. E o faz com a maestria que já rendeu canções como "Born In the USA", sucesso de 1985 que já foi injustamente compreendido como mera bobagem ufanista.

Homenagem a Danny Federici

No álbum, há fé e romantismo em baladas semi-acústicas, com cara de anos 60, como "Kingdom of Days", "My Lucky Day" e "Life Itself" --esta, com solos de guitarras associáveis a "Eight Miles High", hit dos Byrds. Ou mesmo na esperançosa faixa-título, uma das canções do álbum mais inspiradas pelo novo momento político dos Estados Unidos.

Mas o que fica na mente são os personagens calejados e sofridos que sempre despontam na obra do compositor. Como o de "The Wrestler", que aparece como música bônus --foi feita para o filme "O Lutador", estrelado por Mickey Rourke. Ou a tristeza de "The Last Carnival", que encerra o álbum homenageando Danny Federici, que por vários anos foi tecladista da E Street Band, de Springsteen, e morreu em abril de 2008.

Em "Working On a Dream", o cantor associa-se pela quarta vez ao produtor americano Brendan O'Brien, conhecido por suas colaborações com bandas como Stone Temple Pilots e Pearl Jam. Não há muito do peso dos grupos com os quais o produtor colaborou.

O autor de álbuns como "Nebraska" e "Born To Run" continua eternamente um cronista musical voltado à união de referências de bardos folk, Bob Dylan, Beatles e Roy Orbison (uma de suas maiores influências). E, mesmo antevendo a esperança, prefere cantar um passado de lutas que nunca cessam.

Por Ricardo Schott
Fonte: Agência JB/Uol

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