quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Paralamas voltam às origens pop e deixam de lado o rock pesado

Gravado em Salvador, no estúdio de Carlinhos Brown, "Brasil Afora" recupera o ska e as influências nordestinas


Desde que Os Paralamas voltaram do recesso compulsório causado pelo acidente de Herbert Vianna em 2001, a expectativa criada a cada lançamento da banda extrapola os comentários estritamente musicais. Questões quase "físicas" tomaram o centro do foco, mais ou menos como acontece no esporte quando um atleta volta a jogar depois de uma contusão séria. Será que superaram por completo as sequelas da tragédia e continuam, enfim, tão craques quanto antes?

Só agora, em "Brasil Afora", essa pergunta começa de fato a ser respondida. Isso porque, apesar de bons, os álbuns de estúdio antecessores -"Longo Caminho" (2002), o primeiro pós-acidente, e "Hoje" (2005), o seguinte- vertiam a alegria solar natural da banda em um rock escuro, evitando qualquer tipo de comparação entre os Paralamas de antes e os de depois. Optaram por esse desvio porque, no meio de tanta tristeza, não podiam mais se imaginar leves como foram um dia.
Teriam que esperar até que as feridas estivessem cicatrizadas. Elas estão. E "Brasil Afora" é, tanto quanto pode, um disco de caminhada de volta ao sol. O rock pesado perdeu o espaço na mesma medida em que o Brasil e a Jamaica retornam como os principais ingredientes. O calor, sobretudo do Nordeste brasileiro, volta como influência predominante nas músicas, nos arranjos e nas letras.

Não por acaso as gravações ocorreram em Salvador, no estúdio de Carlinhos Brown, que ainda cedeu duas canções inéditas e participou ativamente de uma delas, "Sem Mais Adeus", cantando, tocando percussão e um belo violão à moda de Gil em "Expresso 2222". Mais densa, "Mormaço" (Herbert/Bi/Barone) atinge a secura máxima do sertão em versos como "No mormaço da miséria/ Quem luta pra respirar/ Sabe que essa briga é séria", levados em dueto com a voz épica de Zé Ramalho.

Baião em pele de rock

Também assinada pelos três membros da banda, a faixa-título é um baião brincando de se esconder na pele de um rock -como já fizeram muito bem Raul Seixas, os Novos Baianos, o próprio Zé Ramalho. E, claro, os Paralamas. Mas, calma. Não é o caso de classificar este como um álbum de MPB. Produzido por Liminha, o trabalho é pop -muito pop. "A Lhe Esperar" é um ska composto por dois paulistanos (Arnaldo Antunes e Liminha).

"El Amor" é a versão (feita por Herbert) de uma balada de um argentino (Fito Paez). E as outras faixas, compostas pelos próprios Paralamas, carregam referências bem urbanas, do rock internacional dos anos 70, 90 e 2000. Fazendo as contas, dá para concluir que os Paralamas reencontraram o fio da meada que andava solto desde "Hey Na Na" (1998), o último álbum deles antes da pausa forçada.

Como naquele período -ou melhor: como em todos os álbuns lançados pela banda após "Bora-Bora" (1988)-, pop, reggae, ska e música nordestina voltam a conviver, a procurar laços de identificação. Está certo: o disco novo não tem atributos suficientes para constar entre os melhores dos Paralamas. Não traz nenhuma canção realmente arrebatadora de Herbert, como era costume. Talvez nem vá repercutir com força considerável além das fronteiras de seu fã-clube mais fiel. Mas é, apesar de todas essas contrariedades, um trabalho carregado de movimentos importantes para a história (e o futuro) da própria banda. Movimentos de reencontro, reconciliação e reconforto. Eis o verdadeiro recomeço.

Por Marcus Preto
Fonte: Folha de São paulo

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