segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ultraje a Rigor ensaia retorno e distribui músicas na internet

Olhando a trajetória que o grupo Ultraje a Rigor cumpriu nos últimos 25 anos, é possível dizer que banda esteve sempre ou muito adiantada, ou muito atrasada em relação ao mercado fonográfico.

A banda liderada por Roger Rocha Moreira lança agora o projeto 'Música esquisita a troco de nada', que oferece canções baixáveis gratuitamente no site www.reverbnation.com/ultrajearigor. Ao lado dos companheiros Mingau (baixo) e Bacalhau (bateria), Roger, guitarra e vocal, experimenta afinal fazer tudo sob suas próprias regras e seu próprio tempo.

"Nem sei dizer se esse trabalho vai gerar um disco, apesar de os fãs me dizerem que preferem o CD ao MP3", diz Roger.

O Ultraje disponibilizou no website um trio de canções inéditas: Amor (versão irônica de Amor, amor, amor, bolero de Gabriel Ruiz e Ricardo Lopes Mendez), a punk Vida de Bebê (cuja letra se resume a palavras como "mama, chupa, come, dorme, chora") e a brincalhona Nossa, que cabelo bonito!, feita para uma banda de adolescentes (Roger não diz o nome do grupo) que lhe encomendara uma canção inédita.

"Só que eles recusaram a música. Tinham uns cabelos esquisitos; é aquela coisa do cara que usa o corte de cabelo para se expressar, né? Mandei a música e eles não tiveram senso de humor".

Música esquisita não deixa de ter lá sua inspiração no Radiohead, que também desovou um álbum inédito de graça na internet, In Rainbows. Nos passos da banda inglesa, o Ultraje criou uma área no site do grupo para fãs que porventura queiram fazer uma contribuição para a banda em troca dos downloads.

"Mas acho que o pessoal fica constrangido de doar 50 centavos e nem deixa nada lá. Tive só duas doações, ambas de R$ 10. Mas faz parte do experimento, digamos assim", brinca Roger.

Passados quase 25 anos das 500 mil cópias da estreia Nós vamos invadir sua praia (1985), o Ultraje teve altos altíssimos e baixos abissais nas paradas. Optou por não lançar disco em 1986, ano em que, graças ao Plano Cruzado, várias bandas nacionais encostaram no milhão de cópias ou ultrapassaram essa marca. Passou anos sem conseguir lançar um disco ao vivo com todos os hits do grupo (e que, lançado finalmente em 1999 pela Deck, se chamou 18 anos sem tirar). Atacou, em entrevistas, as rádios que cobravam jabá bem na época em que emplacavam um hit atrás do outro; e experimentou o êxito na internet quando a rede ainda engatinhava.

"Em 1986, erramos no timing. Nem tínhamos tempo de compor. É engraçado, demoramos para sentir a coisa do tamanho que ela era", lembra Roger. "Montamos repertório aos poucos. Sempre me incomodou ter de lançar um LP por ano, compor 14 faixas e só duas ou três tocarem. Exigiram isso de nós, mas nunca conseguimos".

O grupo não tem mais contrato com nenhuma gravadora ,na Deck, última casa do Ultraje, lançaram três discos. Ainda assim, a Warner, primeira gravadora da banda, ainda lança muitos álbuns com o nome do grupo e fotos antigas na capa.

"Sempre saem coletâneas , quase com as mesmas músicas", reclama o cantor. "Gravamos nosso último disco lá, o Ó! (1993) com verba mínima. Quando gravamos o primeiro disco, ele vendeu 500 mil cópias mas me falaram que pode ter sido muito mais.

Ainda assim os fãs se renovam, com várias gerações nas plateias de seus shows.

"Outro dia até ouvi: "Dá um autógrafo para minha avó?", graceja o compositor.

Com mudanças de formação suficientes para confundir até o mais atento biógrafo, o Ultraje ganhou com o tempo uma cara mais de projeto do que de banda. Algo que Roger não chega a lamentar.

"Outro dia vi o Paralamas em close up (filme de Andrucha Waddington sobre a banda de Herbert Vianna) e lá mostrava aquela disposição que a gente tinha na juventude. Mas se fosse a mesma coisa hoje em dia, acharia chato. Não tenho saco para ir a mil festas, prefiro ficar em casa vendo TV", diz o cantor, que graças ao Twitter mantém contato com os amigos do rock.

"Leo Jaime, Kid Vinil e Evandro Mesquita estão lá. Quando vou a Brasília, sempre visito o Philippe Seabra (Plebe Rude) e o Digão (Raimundos). Fico surpreso de ver que tem gente nova que me admira, até em bandas que não são a minha praia, como Fresno e NX Zero".


Por Ricardo Schott
Fonte: Terra/JB Online

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