sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

'Elvis 75 - Good Rockin' Tonight', a realização suprema

Eu estava parado do fora dos portões dourados de Graceland, em Memphis, respirando os gases de escapamento lançados pelos carros que lotavam o Elvis Presley Boulevard (que nome poderia ser mais apropriado?), e conversava com um fã cujos dentes haviam sido destruídos pelo uso de metanfetaminas quando subitamente a compreensão surgiu: estava no coração dos Estados Unidos. E adorando a experiência.

Foi em 2007, e eu tinha ido a Memphis para cobrir o 30° aniversário da morte de Elvis. (Ele nasceu em uma família pobre em Tupelo, Mississipi; e morreu em meio à riqueza da casa que se tornou a segunda mais visitada dos Estados Unidos, atrás apenas da Casa Branca).

Eu nunca havia sido grande fã de Elvis, mas a maneira pela qual seus quadris pareciam guardar o segredo do rhythm'n'blues me fascinava - bem como o fato de que aqueles quadris parecessem não conhecer limites raciais, e tivessem ajudado, com seu movimento frenético, a reformular a questão racial nos anos 50. Ao mesmo tempo, aquele Elvis tão viril e tão enérgico envelheceu e se tornou alguém não muito diferente do viciado que conheci no portão de Graceland - e na verdade isso era outra coisa que me agradava.

Hoje o Rei do Rock estaria celebrando 75 anos, e o foco desta vez é aquilo que Elvis nos deu, e não aquilo que ele desperdiçou. Para celebrar a data, a RCA/Legacy lançou esta semana Elvis 75: Good Rockin' Tonight, uma retrospectiva com 100 canções, um livreto de 80 páginas e um excelente ensaio do crítico Billy Altman, que captura o primeiro encontro entre o então desconhecido Presley e Sam Phillips, da gravadora Sun, o homem que ajudou a História a acontecer. "Eu não canto parecido com ninguém", disse o garoto ao produtor de discos. E como ele tinha razão.

A coletânea é direta, rápida e poderosa, contendo apenas sucessos e pontos altos, do nascimento do rock à feia morte dos sonhos. A primeira canção é My Happiness, gravada por Elvis em 1953 em um disco de acetato, antes de seu contrato com a Sun; a última é o remix JXL para Little Less Conversation, de 2002. Graças aos poderes da restauração digital, o rugido feroz do cantor de origens humildes jamais pareceu tão robusto. A voz de Elvis continua a significar múltiplas coisas para múltiplos ouvintes: o canto da sereia, um convite a tirar a calcinha, o chamado do Senhor, o som de uma vida desperdiçada.

Os puristas podem se queixar de que a coletânea não contém novidades, e também por algumas omissões incompreensíveis. E certamente existe motivo para tanto. Mas para qualquer pessoa que continue a se perguntar "por que Elvis?" (por que ele conquistou tanto sucesso, por que continuamos tão obcecados?), o novo pacote é essencial, como um pedaço ardente da História que podemos tomar nas mãos, e acompanha a vida e carreira de Presley do êxtase aos seus momentos mais patéticos.

Ao longe de três dos quatro discos da coletânea, ela é também diversão garantida. Se você nunca ouviu com a atenção merecida faixas como Jailhouse Rock, Paralyzed ou Mean Woman Blues (a guitarra áspera de Scotty Moore era um dos segredos do sucesso inicial de Presley), não sabe o que está perdendo. Dançar ao som de Elvis é experiência obrigatória. Quando o riff trêmulo de One-Sided Love Affair toma conta de seu corpo, a sensação é quase patriótica: a trilha sonora da vida norte-americana é o rock.

Como Frank Sinatra, Elvis era um intérprete de canções; caso apanhasse uma caneta, era mais provável que o fizesse para anotar o telefone de uma garota (ou de um traficante de drogas) do que para compor. Mas ele ainda assim era um feiticeiro dos mais poderosos no que tange a instilar magia negra no som do rhythm'n'blues. Os esnobes podem dizer que só gostam de Elvis antes de 1958, ou seja, antes que fosse fazer seu serviço militar, que começasse a usar estimulantes para conseguir manter o pique, antes que seu empresário, o manipulador coronel Tom Parker, se deixasse dominar pela cobiça. Mas mesmo depois que ele caiu sob a influência das drogas e dos picaretas, Elvis ainda era capaz de rugir e de emprestar grande balanço às canções comerciais de meio de carreira (Bossa Nova Baby, Viva Las Vegas) ou a composições solenes como How Great Thou Art, If I Can Dream.

A coletânea está organizada cronologicamente, o que faz do disco quatro uma experiência bastante desagradável. Para mim, é especialmente difícil ouvir An American Trilogy, de 1972, o mais triste exemplo de exibicionismo vocal de Elvis em sua fase gorda, uma saudação dolorosa, fedida, e vagamente ofensiva ao país que o colocou no mundo e que viria a matá-lo. Mas é impossível desviar os olhos, é impossível desligar a música, e não porque seja desconfortável, mas porque estamos falando de Elvis, e existe sempre a chance de que surja uma faísca, aquele sobrenatural poderio magnético ou qualquer que seja o nome que queiramos dar ao seu talento mágico. Afinal, estamos falando de um super-herói, e mesmo em seus inchados anos finais ele contava com a capa necessária a provar o fato.

Fonte: The New York Times

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