segunda-feira, 8 de março de 2010

Atrasado e sem voz, Axl Rose leva megaprodução a Brasília para fazer cover de Guns N' Roses

Axl Rose é a definição de atraso. Demorou 13 anos para finalizar o disco "Chinese Democracy". Levou 13 meses, após o lançamento do álbum, para começar a turnê de divulgação. Esperou nove anos para voltar ao Brasil e, no mínimo, 1h30 para subir ao palco do Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, primeira de cinco cidades que recebem neste mês a turnê no país. O atraso se justifica: duas décadas de palco depois, Axl Rose continua parado no tempo.

O líder do Guns N' Roses voltou ao Brasil com uma grande produção e uma super banda de sete integrantes, diferente da formação que tocou por aqui em 2001, no Rock In Rio. Audacioso, o novo show é um exemplo da megalomania de Axl Rose, com chuva de fogos e serpentinas, lança-chamas, sequências de explosões, telões modernos e artifícios diversos para distrair o público de seus diferentes atrasos.

A maratona em Brasília começou efetivamente às 20h30 deste domingo (7) com o show da banda brasiliense Khallice, surpresa para grande parte do público, que não foi avisado de uma abertura local. Sebastian Bach, o convidado especial da turnê, apareceu em cena às 21h30 com uma versão para "Back In The Saddle", do Aerosmith, incluída no repertório da turnê do disco "Angel Down". Em 1h15, o músico trouxe de volta sucessos do Skid Row --"Slave to the Grind", "Big Guns", "Monkey Business" e o hit óbvio "I Remember You"-- e misturou com as faixas de sua carreira solo.

Entre o adeus de Sabastian Bach e a saudação de Axl Rose foram longos minutos de espera pelas 13 mil pessoas, segundo a contabilidade da produção do show. Nas arquibancadas, a expectativa dava lugar ao sono e ao cansaço. Na pista premium, o cenário era deplorável: pessoas visivelmente exaustas deitadas no chão em meio a garrafas, copos plásticos e poças de água e cerveja. Impaciente, o público do piso superior começou a jogar objetos no andar de baixo e instalou uma confusão na pista, acalmada minutos depois.

O Guns N' Roses --como Axl Rose chama o batalhão que convocou para tocar com ele-- só apareceu em cena à 0h10 desta segunda-feira (8). Com chuva de fogos e explosões dentro do ginásio fechado, o som chegou a decibéis doloridos de se ouvir. A faixa-título do último disco abriu a apresentação e "Welcome To The Jungle" veio na sequência para conquistar a multidão cansada. "It's So Easy" foi o prenúncio da fase em que se encontra o líder do grupo.

Axl mantém seus agudos intactos. Economiza na quantidade de gritos estridentes, mas sustenta a extensão quando resolve (por poucas vezes) soltar a garganta, como em "It's So Easy" e "Knockin' On Heavens Door". Por outro lado, Axl parece não ter força para segurar os tons mais baixos, que ficam encobertos pelos instrumentos e até mesmo pelos vocais dos demais músicos que o acompanham em segunda e terceira vozes. Ao vivo, pouco se ouviu da voz de Axl --ao contrário do figurino, que foi modificado uma dezena de vezes durante a apresentação.

Das 14 faixas de "Chinese Democracy", oito foram tocadas, a maioria na primeira parte do show, que terminou às 2h45. "Sorry", "Better" e o solo de guitarra de Richard Fortus presentearam os fãs com a sequência mais cansativa da noite. Para compensar, Axl voltou ao palco de bandana na cabeça para cantar "Live and Let Die", regravação de Paul McCartney inserida em "Use Your Illusion I", de 1991.

A confusa "Shacklers Revenge" ficou para o final, reproduzindo a mesma bagunça sonora de solos de guitarra, efeitos e barulhos eletrônicos da experiência de laboratório que é o álbum. Os grandes momentos foram também de grandes clássicos, criados na época de ouro do Guns, contextualizada com coerência no final dos anos 80: "Welcome To The Jungle", "Sweet Child O' Mine", "November Rain" (com Axl no piano), "You Could Be Mine", "Knockin' On Heavens Door" e "Patience".

O Guns N' Roses de "Chinese Democracy" não é autêntico. E, excluindo as músicas deste disco, o show atual é um cover esforçado do velho Guns N' Roses. Sebastian Bach parece mais digno ao usar seu nome como alcunha artística e assumir que faz covers de sua antiga banda. Enquanto isso, Axl tenta manter a alma do Guns mixando o discurso-clichê "I Have a Dream", de Martin Luther King, no meio de uma música ("Madagascar"). Axl Rose se atrasou no tempo mais uma vez.

A turnê de "Chinese Democracy" segue para Belo Horizonte (dia 10, no Mineirinho), São Paulo (13, Palestra Itália), Rio de Janeiro (14, Praça da Apoteose) e Porto Alegre (16, estacionamento do Fiergs).

Veja as músicas que o Guns N' Roses tocou em Brasília:

"Chinese Democracy"
"Welcome To The Jungle"
"It's So Easy"
"Mr. Brownstone"
"Sorry"
"Better"
Solo de Richard Fortus
"Live And Let Die"
"If The World"
"Rocket Queen"
Solo de Dizzy
"Street Of Dreams"
"Scraped"
Solo de Dj Ashba
"Sweet Child O' Mine"
"You Could Be Mine"
Solo de Axl Rose
"November Rain"
"Knockin' On Heavens Door"
"Shackler's Revenge"
"Patience"
"Nightrain"

bis:
"Madagascar"
"Paradise City"

Por Mariana Tramontina
Fonte: Uol

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